Quando a criança aprende a ter medo da comida?
Especialista explica como comentários sobre peso, redes sociais e a busca pela alimentação perfeita podem impactar a relação de crianças e adolescentes com a alimentação.
"Isso engorda?", "quantas calorias tem?" ou "minha barriga está grande?". Embora pareçam perguntas comuns, elas podem indicar que uma criança já está desenvolvendo preocupações excessivas com comida, peso e aparência. E esse processo, muitas vezes silencioso, pode começar muito antes do surgimento de um transtorno alimentar.
No Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares, celebrado em 2 de junho, especialistas chamam atenção para a importância de observar os sinais precoces e a forma como crianças e adolescentes estão aprendendo a enxergar o próprio corpo e a alimentação.
A nutricionista Nicolle Albanezi explica que a chamada cultura da dieta tem chegado cada vez mais cedo ao universo infantil, muitas vezes disfarçada de hábitos considerados saudáveis.

"Antes, a cultura da dieta aparecia muito associada a fazer regime, contar calorias ou querer emagrecer. Hoje, muitas vezes ela vem em falas como: estilo de vida saudável, comer limpo, projeto verão, corpo definido, performance, anti-inflamatório, sem açúcar, sem glúten, sem lactose, detox ou alimento proibido."
Segundo a especialista, o problema não está em ensinar que alguns alimentos são mais nutritivos do que outros, mas em transmitir a ideia de que comer é algo perigoso ou que determinados alimentos tornam uma pessoa "errada", "fraca" ou "sem controle".
As redes sociais também exercem um papel importante nessa construção. Crianças e adolescentes são expostos diariamente a conteúdos que mostram corpos considerados ideais, rotinas alimentares aparentemente perfeitas e mensagens que associam valor pessoal à aparência física.
"Isso pode gerar comparação, insatisfação corporal e a sensação de que comer normalmente é inadequado", afirma Nicolle.
A especialista lembra que o impacto desse ambiente digital vai além da estética. "O UNICEF também aponta que adolescentes na América Latina estão expostos a ambientes obesogênicos, marketing digital de ultraprocessados e conteúdos digitais prejudiciais, com impacto sobre imagem corporal, comportamento alimentar e saúde mental."
Para ela, as redes sociais podem ser uma ferramenta de educação alimentar, mas exigem cautela. "É necessário ter cautela, pois a rede social também ensina sobre comida, mas não pode ser sem contexto, sem individualidade e com muita pressão estética."
Na prática, o reflexo desse cenário aparece em comportamentos e preocupações que deveriam estar longe da infância, mas que têm se tornado cada vez mais comuns.
Segundo Nicolle, perguntas frequentes sobre calorias, medo de engordar, necessidade de compensar excessos com exercícios e preocupação constante com o corpo podem indicar que a criança já está desenvolvendo uma relação marcada por vigilância e culpa em torno da alimentação.
"Muitas vezes é um sinal de que a criança está internalizando medo, culpa ou vigilância corporal."
A preocupação excessiva com alimentação também pode surgir sob a aparência de hábitos saudáveis. Nicolle explica que existe uma diferença importante entre educação alimentar e obsessão por alimentação saudável.
"Educação alimentar é quando a criança aprende sobre variedade, rotina, fome, saciedade, alimentos do dia a dia, alimentos ocasionais, prazer, cultura e cuidado. Mas a obsessão começa quando a comida passa a ser vivida com ansiedade, culpa, rigidez e controle excessivo."
O mesmo vale para a busca por saúde e performance. Em uma época em que adolescentes acompanham influenciadores fitness e têm acesso constante a conteúdos sobre dieta, definição muscular e suplementação, alguns comportamentos podem merecer atenção.
"Hoje não é raro ver adolescentes preocupados em bater meta de proteína, secar, definir, tomar pré-treino, evitar carboidrato, fazer jejum ou não sair do plano alimentar."
Segundo a nutricionista, o alerta deve ser aceso quando surgem culpa após comer, medo de determinados alimentos, isolamento social por causa da alimentação ou necessidade constante de compensar excessos com exercícios físicos.
Ela destaca que um dos maiores riscos é a criança crescer acreditando que seu corpo está sempre errado ou precisa ser corrigido.
"A criança pode crescer entendendo que seu corpo é um projeto inacabado, um problema a ser resolvido, algo que precisa estar sempre menor, mais magro, mais definido ou mais aceito."
Esse impacto pode acompanhar a criança por muitos anos. Segundo a especialista, o corpo infantil e adolescente passa naturalmente por mudanças de peso, proporção e composição corporal ao longo do crescimento, mas nem sempre essas transformações são compreendidas dessa forma.
"Nem todo aumento de peso, fome ou mudança corporal na infância e adolescência é um problema. Muitas vezes, é crescimento, puberdade e desenvolvimento."
Para os pais, a mensagem também é um convite à reflexão. Afinal, a forma como os adultos falam sobre comida, peso e corpo influencia diretamente a relação que os filhos constroem com a alimentação.
"Sim. E não só pelo que falam, mas também pelo exemplo."
A especialista explica que a criança observa comportamentos muito antes de compreender conceitos nutricionais.
"A criança observa quando o adulto não come pão, mas deseja. Quando fala que foi ruim porque comeu doce. Quando se pesa com sofrimento. Quando elogia emagrecimento. Quando comenta o corpo dos outros. Quando compensa comida com treino. Quando vive alternando restrição e exagero."
Segundo Nicolle, a influência dos pais vai além da escolha dos alimentos.
"No fim, a criança não aprende apenas o que comer, ela aprende como se sentir comendo."
No Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares, o alerta dos especialistas é que a prevenção começa muito antes do diagnóstico. Ela passa pelas conversas dentro de casa, pela forma como o corpo é tratado e pela construção de uma relação mais saudável, flexível e acolhedora com a comida.
"Por isso, crianças e adolescentes precisam de educação alimentar, mas também precisam de proteção contra o terrorismo nutricional, pressão estética e discursos adultos sobre corpo e dieta. A melhor educação alimentar é aquela que dá autonomia."
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