Canetas emagrecedoras e perfumes árabes: existe alguma relação entre essas duas febres?
Medicamentos como a semaglutida podem interferir em circuitos cerebrais envolvidos na recompensa, mas ainda não há estudos que relacionem seu uso ao maior interesse por perfumes; pesquisador explica por que a hipótese desperta curiosidade
Canetas emagrecedoras de um lado. Perfumes árabes viralizando nas redes sociais do outro. Duas tendências aparentemente sem nenhuma relação levantam uma hipótese curiosa: se medicamentos como a semaglutida interferem em mecanismos cerebrais relacionados à comida e à recompensa, será que outros estímulos prazerosos poderiam ganhar espaço?
A resposta, por enquanto, é: não sabemos.
Não há evidência científica de que o uso de medicamentos para obesidade aumente o interesse por perfumes — árabes ou não —, roupas, cosméticos ou outros produtos. Mas estudos começam a investigar como os agonistas do receptor de GLP-1 podem interferir nos circuitos cerebrais envolvidos na recompensa, abrindo espaço para novas perguntas sobre possíveis mudanças de comportamento.

“É possível que algumas pessoas passem a direcionar esse sistema de recompensa para outras experiências sensoriais, como conhecer novas fragrâncias, renovar o guarda-roupa ou investir em produtos ligados ao autocuidado”, afirma.
O próprio pesquisador, no entanto, faz uma ressalva importante: “Essa hipótese ainda precisa ser confirmada por estudos clínicos específicos e não representa um efeito esperado para todos os pacientes.”
O que a semaglutida pode fazer no sistema de recompensa?
Um dos trabalhos que ajudam a entender de onde surge essa discussão foi publicado na revista científica Neuroscience Applied e investigou como a semaglutida interfere na atividade de neurônios produtores de dopamina na área tegmental ventral (VTA), uma região cerebral envolvida no processamento de recompensa.
Mas há uma informação fundamental para interpretar o resultado: o experimento foi realizado em camundongos, e não em seres humanos.
Os animais foram treinados para associar um estímulo a uma recompensa com sacarose. Os pesquisadores então administraram semaglutida e acompanharam tanto o comportamento dos animais quanto a atividade dos neurônios dopaminérgicos.
A semaglutida reduziu a quantidade de recompensas consumidas e o comportamento relacionado ao consumo da sacarose. Ao mesmo tempo, aumentou a atividade dos neurônios de dopamina durante o consumo da recompensa. A atividade relacionada ao estímulo que antecipava a recompensa, por outro lado, não sofreu alteração.
Os resultados mostram que a relação entre semaglutida e sistema de recompensa é mais complexa do que simplesmente dizer que o medicamento “reduz o prazer”.
Isso significa que o cérebro procura outro prazer?
Não necessariamente.
É justamente aqui que a ciência termina e começa a hipótese.
O estudo não avaliou perfumes, compras, roupas, cosméticos ou qualquer mudança no comportamento de consumo. Também não mostrou que, ao diminuir o interesse pela comida, a semaglutida faça o cérebro necessariamente procurar outra fonte de recompensa.
Uma publicação posterior na mesma revista discutiu o possível impacto dos agonistas de GLP-1 nos circuitos de recompensa, mas também não demonstrou uma relação entre esses medicamentos e o consumo de produtos de beleza ou fragrâncias.
Há pesquisas avançando sobre outros comportamentos relacionados à recompensa, como o consumo de álcool. Isso mostra que os possíveis efeitos dos agonistas de GLP-1 para além da alimentação são uma área ativa de investigação científica.
Ou seja: saber que os medicamentos podem interferir em mecanismos relacionados à recompensa não permite concluir que uma recompensa será simplesmente “substituída” por outra.
E onde entram os perfumes árabes?
É justamente o encontro entre uma tendência de saúde e outra de comportamento que levou Cafarchio a levantar a hipótese.
Em paralelo à popularização das canetas emagrecedoras, os perfumes árabes ganharam espaço nas redes sociais, impulsionando a curiosidade que deu origem à hipótese levantada pelo pesquisador.
Para Cafarchio, o olfato torna a discussão especialmente interessante por sua relação com emoções e memória.
“O olfato possui conexões diretas com áreas cerebrais responsáveis pelas emoções, memória e recompensa, tornando os perfumes uma experiência sensorial bastante marcante”, afirma.
Mas não existe, até o momento, evidência de que a popularização dos perfumes árabes tenha qualquer relação causal com o crescimento do uso das canetas emagrecedoras.
Portanto, o fato de os dois fenômenos acontecerem simultaneamente não significa que um esteja provocando o outro.
Canetas podem mudar outros comportamentos além da alimentação?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante por trás da provocação dos perfumes.
A atuação dos agonistas de GLP-1 sobre comportamentos relacionados à recompensa vem despertando interesse científico para além da alimentação. Pesquisas já investigam, por exemplo, uma possível relação com o consumo de álcool.
Isso, porém, é muito diferente de afirmar que as canetas mudam genericamente aquilo que uma pessoa deseja ou compra.
No caso dos perfumes, por enquanto, temos uma hipótese — não um efeito colateral conhecido, uma consequência comprovada ou um novo comportamento atribuído aos medicamentos.
E essa distinção é importante justamente em um momento em que praticamente qualquer mudança de comportamento de quem usa esses medicamentos pode acabar sendo atribuída às canetas.
Como explica Cafarchio, a possibilidade de outros estímulos sensoriais ganharem espaço é uma ideia a ser investigada. Para saber se existe realmente uma relação, seriam necessários estudos específicos acompanhando pessoas em tratamento e avaliando seus comportamentos.
Até lá, a conexão entre canetas emagrecedoras e a febre dos perfumes árabes continua sendo exatamente isso: uma hipótese curiosa à espera de ciência.
Comentários ()