Palpitação na menopausa: quando é esperado e quando pode ser sinal de um problema no coração?
Fogachos, ansiedade e alterações do sono podem estar associados às palpitações durante a menopausa, mas qualquer alteração no ritmo cardíaco merece investigação.
Sentir o coração acelerar ou perceber batimentos diferentes é uma queixa relativamente comum entre mulheres no climatério e na menopausa. Muitas vezes, as palpitações aparecem junto aos fogachos, à ansiedade ou aos distúrbios do sono, sintomas característicos dessa fase da vida.
Apesar disso, elas não devem ser encaradas automaticamente como consequência das alterações hormonais.
Segundo o cardiologista Hugo Bellotti, diretor do Serviço de Arritmia e Estimulação Cardíaca do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, qualquer alteração no ritmo cardíaco merece investigação, pois pode representar desde uma manifestação da própria menopausa até o primeiro sinal de uma arritmia, como a fibrilação atrial.
"É muito comum as mulheres relatarem palpitações, que muitas vezes vêm associadas aos fogachos, à ansiedade ou aos distúrbios do sono que ocorrem nessa fase. No entanto, não devemos simplesmente culpar a menopausa e ignorar o sintoma. Qualquer alteração no ritmo cardíaco merece uma investigação cardiológica", afirma.
De acordo com o médico, a queda da produção de estrogênio ajuda a explicar por que tantas mulheres passam a perceber mudanças nos batimentos cardíacos durante a menopausa. Ele explica que esse hormônio exerce um papel importante na proteção do sistema cardiovascular e que sua redução pode favorecer alterações na inflamação, na função dos vasos sanguíneos e na atividade elétrica do coração.
"Essa perda de proteção, somada a pequenas mudanças na estrutura do músculo cardíaco, altera a parte elétrica do coração, gerando curtos-circuitos que sentimos como batimentos irregulares ou muito acelerados", explica.
Embora as palpitações relacionadas aos fogachos costumem durar poucos minutos e acompanhar o suor e a sensação súbita de calor, Bellotti ressalta que nem sempre é possível diferenciar uma alteração hormonal de uma arritmia apenas pelos sintomas.
Segundo ele, a fibrilação atrial pode ser mais persistente e provocar falta de ar ou um cansaço desproporcional, mas a confirmação depende de avaliação médica.
"A única forma segura e definitiva de diferenciar é através de uma avaliação médica com um eletrocardiograma, que nos permite enxergar alterações elétricas específicas da arritmia", afirma.
O cardiologista faz um alerta especial para situações em que as palpitações são acompanhadas por falta de ar súbita, dor ou aperto no peito, tontura intensa, desmaios ou sensação de fraqueza e fadiga extremas. Nesses casos, a recomendação é procurar atendimento médico imediatamente.
"Esses são sinais de que o coração pode estar sob um nível elevado de estresse físico", diz.
Além dos sintomas, Bellotti chama a atenção para outro aspecto importante: a própria menopausa representa um período de aumento do risco cardiovascular.
Segundo ele, mulheres que entram na menopausa precocemente — antes dos 45 anos, especialmente antes dos 40 — apresentam risco significativamente maior de desenvolver fibrilação atrial. A menopausa também está associada à piora do colesterol e ao aumento do risco de síndrome metabólica.
Outros fatores que contribuem para o surgimento de arritmias nessa fase incluem fogachos muito frequentes, distúrbios crônicos do sono, ganho de gordura visceral, perda de massa muscular, ansiedade e depressão.
A investigação costuma começar pelo eletrocardiograma (ECG). Dependendo de cada caso, também podem ser solicitados exames de sangue para avaliar colesterol, glicemia e o marcador NT-proBNP, além de exames de imagem, como o ultrassom das carótidas.
O diagnóstico precoce é importante porque, segundo Bellotti, a fibrilação atrial faz com que o coração bata de forma desorganizada, favorecendo a formação de coágulos que podem migrar para o cérebro e provocar um acidente vascular cerebral (AVC).
"O diagnóstico precoce nos permite introduzir tratamentos antes que ocorra um dano avançado e um enrijecimento crônico da estrutura do coração. Isso salva vidas e previne sequelas físicas graves", afirma.
Para o cardiologista, um dos maiores desafios é evitar que sintomas cardíacos sejam atribuídos apenas à menopausa.
"Cansaço exagerado, falta de ar, palpitações e alterações no sono costumam ser automaticamente colocados na 'conta da menopausa'. Como as doenças do coração se apresentam de forma muito atípica nas mulheres, esse atraso faz com que problemas tratáveis fiquem silenciosos", alerta.
Por isso, Bellotti defende que o cuidado com o coração comece ainda no início do climatério. Além de manter alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, não fumar e evitar o ganho excessivo de peso, ele recomenda que as mulheres conversem com um cardiologista mesmo antes do aparecimento de sintomas.
"A consulta ao cardiologista deve ocorrer no início do climatério de forma preventiva, exatamente para avaliar a saúde cardiovascular e criar um plano de ação antes de qualquer sintoma surgir."
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