Ela passou mais de dez anos vendendo bebidas alcoólicas. Hoje ajuda pessoas a descobrirem a vida sem álcool.

Ela passou mais de dez anos vendendo bebidas alcoólicas. Hoje ajuda pessoas a descobrirem a vida sem álcool.
Nesta semana, ao completar dois anos sem álcool, Mariana Gutterres diz que as maiores transformações da sua vida foram além da saúde física.

Depois de construir uma carreira na indústria de bebidas, Mariana Gutterres decidiu parar de beber. A mudança começou em silêncio, ganhou força após um período de luto e acabou dando origem ao Movimento Zero, comunidade que incentiva uma relação mais consciente com o álcool.

Durante mais de dez anos, Mariana Gutterres viveu o que muita gente consideraria o emprego dos sonhos. Formada em Gastronomia, trabalhou em algumas das principais empresas do mercado de bebidas alcoólicas. O trabalho incluía viagens, eventos, restaurantes renomados e degustações frequentes. O álcool fazia parte da rotina profissional e também da vida social.

"Todo mundo falava: 'Nossa, Mariana, eu quero trabalhar que nem você'."

A frase resume como aquele estilo de vida era visto por quem estava de fora. Para ela, beber às dez da manhã durante um treinamento, brindar com clientes ou passar o dia inteiro em eventos era algo completamente normal.

Foi justamente essa naturalização que fez o álcool ocupar um espaço cada vez maior na sua rotina, sem que ela percebesse.

A primeira mudança aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Longe dos eventos e das viagens de trabalho, Mariana percebeu que quase não bebia em casa. Foi o período em que menos consumiu álcool.

Pouco tempo depois, porém, um acontecimento mudaria completamente sua forma de enxergar a vida: a morte da afilhada, aos 14 anos.

Ela conta que o luto a fez olhar, pela primeira vez, para a própria saúde mental.

"Não foi a saúde física que veio primeiro. Foi a saúde mental."

A partir dali, passou a meditar, fazer terapia, escrever e questionar escolhas que até então pareciam automáticas. Aos poucos, percebeu que já não se reconhecia na pessoa que havia construído aquela carreira.

Foi nesse período que começou a fazer pequenos testes: participar de eventos sem beber.

Enquanto todos brindavam com bebidas alcoólicas, ela escolhia água com gás.

A experiência mudou completamente sua percepção.

"Sem bebida tudo muda. Você começa a reparar no ambiente, nas conversas, nas pessoas."

A transformação, no entanto, não aconteceu da noite para o dia.

Mesmo depois de decidir reduzir o consumo de álcool, Mariana continuou trabalhando no setor por cerca de quatro anos. Tentou mudar de empresa, acreditando que o problema estivesse apenas no ambiente de trabalho, até perceber que o incômodo era mais profundo.

Ela conta que fazia exercícios, meditava, dormia melhor e sentia que estava recuperando o equilíbrio. Mas bastava beber em um evento para levar dias até conseguir retomar a rotina.

"Toda vez que eu bebia era como se eu quebrasse um compromisso comigo mesma."

Foi desse conflito que nasceu o Movimento Zero.

O projeto começou como um espaço para compartilhar reflexões sobre uma vida sem álcool. Mariana diz que nunca imaginou expor a própria história nas redes sociais, principalmente porque havia passado anos trabalhando justamente para incentivar o consumo de bebidas alcoólicas.

A reação inicial não foi simples.

Muitas pessoas disseram que ela estava "ficando maluca". Outras questionavam como alguém que havia construído carreira nesse mercado agora falava sobre sobriedade.

Com o tempo, porém, começaram a chegar mensagens de pessoas que decidiram rever a própria relação com a bebida depois de acompanhar seus relatos.

Hoje, Mariana faz questão de esclarecer que o Movimento Zero não pretende convencer ninguém a parar de beber.

"O Movimento Zero não é sobre dizer o que é certo ou errado. É sobre ajudar as pessoas a encontrarem a própria autonomia."

Ela prefere falar em escolhas conscientes. Incentiva quem quiser experimentar um período sem álcool, acompanha o crescimento do mercado de bebidas sem álcool e acredita que cada pessoa deve construir sua própria relação com o consumo.

Nesta semana, ao completar dois anos sem álcool, Mariana diz que as maiores transformações da sua vida foram além da saúde física.

Ela fala em presença, qualidade do sono e pensamentos mais claros. Mas, principalmente, fala sobre ter reencontrado quem era.

"Eu descobri que gosto de muito menos coisas do que eu achava. Descobri que gosto de dormir cedo, de acordar cedo, de cuidar das plantas, de meditar. Fiz as pazes comigo."

Segundo ela, esse processo nem sempre é fácil.

"A sobriedade assusta."

Para quem pensa em passar um mês sem beber, seu conselho é simples: experimentar.

Ela acredita que esse período pode revelar hábitos, relações e comportamentos que muitas vezes passam despercebidos na correria do dia a dia.

"O começo pode ser desafiador. Mas você não vai se arrepender."

Hoje, Mariana compartilha sua experiência sobre a vida sem álcool no Movimento Zero, perfil criado para promover reflexões sobre sobriedade e autonomia na relação com a bebida. Também apresenta o Sóbrios Cast ao lado de Zuriel Palma, onde recebe convidados para conversar sobre os desafios, as descobertas e as transformações de quem escolheu viver sem álcool.

Ao olhar para trás, diz que gostaria de dar um conselho para a mulher que um dia acreditou que precisava beber para pertencer.

"Confia mais em você."