Sedentarismo segue sem cair no mundo, apesar de 20 anos de campanhas, aponta estudo
Pesquisa publicada na Nature Health e divulgada pela Agência Einstein mostra que um em cada três adultos ainda não faz atividade física suficiente e que a falta de políticas públicas eficazes ajuda a explicar o cenário.
Mesmo com campanhas de conscientização e políticas públicas voltadas ao incentivo da atividade física, o mundo praticamente não avançou quando o assunto é combater o sedentarismo nas últimas duas décadas.
É o que mostra um estudo publicado na revista científica Nature Health e divulgado pela Agência Einstein. A pesquisa analisou documentos de 200 países entre 2004 e 2025 e concluiu que, atualmente, um em cada três adultos e 20% dos adolescentes não atingem a recomendação mínima de 150 minutos semanais de atividade física moderada, conforme orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo os pesquisadores, embora a maioria dos países tenha implementado políticas para estimular uma vida mais ativa, essas iniciativas tiveram pouco impacto sobre os níveis de atividade física da população.
Não falta informação, falta transformar conhecimento em ação
Para Everton Crivoi, profissional de educação física do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação do Hospital Israelita Albert Einstein, o problema não está na falta de evidências científicas sobre os benefícios da atividade física.
"O artigo aborda um paradoxo que já está bem estabelecido na literatura, um cenário que evidencia o desalinhamento entre o que já sabemos, do ponto de vista científico, e o que de fato conseguimos implementar em escala populacional. Não falta evidência sobre os benefícios da atividade física, mas priorização real e de capacidade de execução."
O especialista explica que muitos países possuem políticas formais de incentivo, mas elas acabam sendo pouco efetivas por não contarem com metas claras, financiamento estruturado e definição de responsabilidades.
"Em muitos casos, a atividade física parece ocupar um lugar de 'prioridade crescente, porém baixa', que seria mais associada à produção de relatórios com dados bonitos para indicadores globais do que à transformação concreta e real do comportamento da população."
O ambiente influencia mais do que a informação
O estudo também reforça que saber da importância do exercício físico nem sempre é suficiente para mudar o comportamento das pessoas.
Segundo Crivoi, a prática de atividade física depende muito das condições oferecidas pelo ambiente.
"Na prática, a adesão parece estar muito mais relacionada ao ambiente e à facilidade do que à informação."
Por isso, políticas que tornam o deslocamento a pé ou de bicicleta mais fácil e seguro tendem a gerar resultados mais consistentes do que campanhas educativas isoladas.
Entre os exemplos citados está a melhoria da mobilidade urbana. Pessoas que deixam o carro e passam a utilizar transporte público podem aumentar significativamente o número de passos dados ao longo do dia, incorporando a atividade física à rotina de forma natural. Segundo o especialista, criar cidades mais caminháveis, seguras e com boa mobilidade pode ser uma das estratégias mais efetivas para aumentar os níveis de atividade física da população.
O desafio agora é transformar cidades e hábitos
Embora o estudo não tenha identificado quais políticas foram mais eficazes em cada país, os autores destacam que o combate ao sedentarismo depende de ações integradas entre diferentes setores da sociedade.
Para Crivoi, o desafio agora não é produzir mais evidências sobre os benefícios da atividade física, mas transformar esse conhecimento em mudanças concretas.
"Não estamos mais na fase de discutir se a atividade física é relevante, mas sim como transformar esse conhecimento em ação concreta, em escala populacional. E isso depende muito mais de decisões estruturais, organização de sistemas e integração entre setores do que de novas evidências científicas."
Para os pesquisadores, combater o sedentarismo exige ir além das campanhas educativas. É preciso criar ambientes que favoreçam a prática de atividade física no dia a dia, tornando escolhas saudáveis mais acessíveis para toda a população.
Comentários ()