Por que um cheiro pode despertar felicidade? Estudo reforça ligação entre olfato e bem-estar

Por que um cheiro pode despertar felicidade? Estudo reforça ligação entre olfato e bem-estar
Photo by Elly Johnson / Unsplash

Pesquisa publicada na revista científica Frontiers in Human Neuroscience encontrou uma associação entre melhor capacidade olfativa e maiores índices de felicidade e satisfação com a vida. Entenda por que o olfato está tão ligado às emoções e às memórias.

O cheiro de um bolo recém-saído do forno, o perfume de alguém especial ou até o aroma de um lugar da infância. Basta sentir um desses cheiros para que lembranças e emoções apareçam quase instantaneamente.

Essa conexão entre olfato, memória e emoções já é conhecida pela ciência. Agora, um estudo brasileiro publicado na revista científica Frontiers in Human Neuroscience reforça que pessoas com melhor capacidade olfativa também tendem a apresentar maiores índices de felicidade e satisfação com a vida.

A pesquisa foi desenvolvida pelo Centro de Pesquisa do Olfato do Grupo Boticário em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein e avaliou mulheres entre 18 e 40 anos. Embora o objetivo inicial fosse investigar a influência dos hormônios na percepção dos odores, um dos principais achados foi outro: independentemente do grupo analisado, mulheres com melhor desempenho nos testes olfativos apresentaram melhores indicadores de bem-estar.

Por que os cheiros despertam tantas emoções?

O olfato é o único dos cinco sentidos que possui uma ligação direta com estruturas cerebrais responsáveis pelas emoções e pela memória, como a amígdala e o hipocampo.

Enquanto informações da visão e da audição passam por diferentes áreas do cérebro antes de serem interpretadas, os estímulos olfativos chegam rapidamente ao sistema límbico, região responsável pelo processamento das emoções.

É por isso que um simples aroma pode transportar uma pessoa para um momento específico da infância, lembrar alguém querido ou despertar sensações de conforto, saudade e felicidade em poucos segundos.

Esse fenômeno é conhecido como memória olfativa e ajuda a explicar por que determinados cheiros permanecem vivos na memória mesmo após muitos anos.

O que o estudo descobriu?

Os pesquisadores utilizaram o Sniffin' Sticks Test, considerado padrão-ouro para avaliação da capacidade olfativa, além de escalas internacionalmente validadas para medir felicidade subjetiva e satisfação com a vida.

Os resultados mostraram uma correlação positiva entre desempenho olfativo e bem-estar: quanto melhor a capacidade de perceber e identificar odores, maiores foram os índices de felicidade subjetiva e satisfação com a vida.

Segundo os autores, esse achado reforça que o olfato não deve ser visto apenas como um sentido relacionado à percepção de cheiros, mas também como um possível marcador da saúde e do bem-estar.

Isso significa que sentir cheiros deixa as pessoas mais felizes?

Não necessariamente.

Os próprios pesquisadores fazem um alerta importante: o estudo identificou uma associação entre melhor capacidade olfativa e maiores índices de bem-estar, mas não permite afirmar que uma coisa seja a causa da outra.

Em outras palavras, ainda não é possível dizer se pessoas com melhor olfato tendem a ser mais felizes ou se indivíduos com maior bem-estar apresentam melhor desempenho na percepção dos odores.

Novos estudos serão necessários para entender essa relação.

Muito além dos perfumes

Nas últimas décadas, a neurociência tem mostrado que o olfato desempenha um papel importante na qualidade de vida. Alterações na percepção dos cheiros podem estar presentes, por exemplo, em doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, além de serem frequentes após infecções respiratórias.

Por isso, compreender melhor como o cérebro processa os odores pode ajudar não apenas no desenvolvimento de fragrâncias e produtos sensoriais, mas também ampliar o conhecimento sobre saúde, emoções e bem-estar.