Por que a menopausa parece piorar no inverno? O que a ciência já sabe — e o que ainda não sabe

Por que a menopausa parece piorar no inverno? O que a ciência já sabe — e o que ainda não sabe
Photo by Rabbi Talmeed Levi / Unsplash

Muitas mulheres relatam mais fogachos, insônia, dores articulares e ressecamento nos meses frios. Estudos sugerem que o clima pode influenciar essa percepção, mas mostram que a relação é mais complexa do que parece.

Com a chegada do inverno, muitas mulheres relatam que os sintomas da menopausa ficam mais intensos. Fogachos mais frequentes, noites mal dormidas, dores nas articulações, pele ressecada e alterações no humor costumam aparecer entre as principais queixas durante os meses frios.

Mas será que o inverno realmente piora a menopausa?

A resposta da ciência é: depende.

Embora existam estudos que indiquem uma variação sazonal de sintomas como fogachos e distúrbios do sono, ainda não há consenso de que as baixas temperaturas sejam, sozinhas, responsáveis por esse agravamento. Uma pesquisa publicada na revista científica Menopause observou que alguns sintomas podem variar ao longo das estações do ano, mas fatores como alterações hormonais, saúde mental, estilo de vida e percepção individual também exercem influência.

O que a ciência já sabe

A menopausa é marcada pela queda da produção de estrogênio, hormônio que participa de diversas funções do organismo, incluindo a regulação da temperatura corporal, a saúde da pele, das articulações e do sistema urogenital.

Segundo a The Menopause Society, essa redução hormonal altera o centro de regulação da temperatura localizado no hipotálamo, tornando o organismo mais sensível às oscilações térmicas. Esse mecanismo ajuda a explicar os fogachos e pode fazer com que algumas mulheres percebam maior desconforto durante períodos de mudanças de temperatura.

Segundo a ginecologista Daniella Campos, diretora médica da Clínica Elsimar Coutinho, essa sensibilidade costuma ficar mais evidente durante o inverno.

Daniella Campos, ginecologista. Crédito: Divulgação
"O corpo da mulher na menopausa já apresenta uma sensibilidade maior às alterações de temperatura. Nessa época do ano, é comum observarmos piora dos fogachos, mais episódios de suor noturno e desconforto térmico, principalmente durante a madrugada."

A médica ressalta que ambientes muito aquecidos, excesso de roupas e banhos muito quentes também podem funcionar como gatilhos para as ondas de calor.

Sono, pele e humor também podem sentir os efeitos do inverno

Além dos fogachos, outros sintomas podem ficar mais perceptíveis nessa época do ano.

A menor exposição à luz solar durante o inverno pode influenciar o ritmo circadiano e a produção de melatonina, hormônio relacionado ao ciclo do sono. Somado aos despertares provocados pelos fogachos, isso pode contribuir para noites mal dormidas, cansaço e alterações de humor.

"Muitas pacientes relatam que começam a dormir pior justamente quando chegam os dias frios. Os fogachos noturnos interrompem o sono e isso gera um efeito em cascata, afetando energia, concentração, humor e disposição ao longo do dia."

Outro fator importante é o clima seco. A combinação entre baixa umidade do ar, banhos quentes e redução dos níveis de estrogênio favorece o ressecamento da pele e das mucosas.

Na região íntima, esse ressecamento pode provocar ardência, desconforto e dor durante as relações sexuais.

"O ressecamento íntimo tende a ficar mais evidente durante o inverno. Muitas mulheres sentem mais desconforto nessa fase, mas acabam não procurando ajuda por acreditarem que é algo natural da idade."

E o que a ciência ainda não sabe?

Apesar dos relatos frequentes de piora dos sintomas durante o inverno, os pesquisadores ainda não conseguiram demonstrar que o frio seja o responsável direto por esse agravamento.

Especialistas acreditam que diferentes fatores atuem ao mesmo tempo, como alterações hormonais, clima seco, qualidade do sono, menor exposição ao sol, atividade física reduzida e aspectos emocionais.

Ou seja, o inverno pode contribuir para aumentar a percepção dos sintomas, mas provavelmente não explica, sozinho, as mudanças observadas por muitas mulheres.

Dores nas articulações entram nessa conta?

As dores articulares também costumam ser uma das principais queixas durante o inverno.

Segundo a Daniella Campos, o frio favorece maior contração muscular e pode aumentar a sensação de rigidez, especialmente em mulheres sedentárias ou que entraram recentemente na menopausa.

"O frio provoca uma contração muscular maior e pode intensificar dores que já existem. Mulheres sedentárias ou que passaram pela menopausa recentemente costumam perceber ainda mais esses desconfortos."

Até o momento, porém, a literatura científica ainda não estabeleceu uma relação direta entre as baixas temperaturas e o agravamento das dores articulares na menopausa, sendo necessários mais estudos sobre o tema.

Como aliviar os sintomas durante o inverno?

Algumas medidas simples podem ajudar a reduzir o desconforto durante os meses frios:

  • manter uma rotina regular de atividade física;
  • hidratar a pele diariamente;
  • beber água ao longo do dia, mesmo sem sentir sede;
  • evitar banhos muito quentes;
  • buscar exposição solar sempre que possível;
  • manter uma alimentação equilibrada;
  • reduzir o consumo de álcool e cafeína;
  • realizar acompanhamento ginecológico regularmente.

Segundo a Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para aliviar fogachos e outros sintomas vasomotores em mulheres que não apresentam contraindicações. A indicação, no entanto, deve ser individualizada e feita após avaliação médica.

Informação e acompanhamento fazem diferença

Hoje, as mulheres vivem cada vez mais anos após a menopausa. Por isso, compreender essa fase e buscar orientação médica quando os sintomas comprometem a qualidade de vida é fundamental. Como destaca Daniella Campos:

"A menopausa não deve ser encarada como um período de sofrimento inevitável. Hoje existem recursos considerados seguros quando bem indicados e individualizados, capazes de aliviar sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida da mulher."