Metade das meninas brasileiras menstrua até os 11 anos — e a dor ainda afasta estudantes da escola
Menstruação precoce, cólicas intensas e falta de estrutura adequada ainda comprometem a saúde e a permanência escolar de milhões de brasileiras.
A primeira menstruação está chegando cada vez mais cedo para as meninas brasileiras. E, junto com ela, surgem desafios que vão muito além das mudanças no corpo.
Dados apresentados pela gerente de Saúde do Instituto Alana, Sofia Reinach, durante o evento Pulso, realizado pelo Portal Drauzio Varella e pelo UOL, mostram que cerca de 50% das meninas no Brasil menstruam até os 11 anos.

A antecipação da menarca — nome dado à primeira menstruação — merece atenção porque está associada a um aumento do risco de cólicas mais intensas e outros sintomas que podem comprometer a qualidade de vida.
Dor abdominal, dor de cabeça, indisposição, fadiga e desconforto no corpo fazem parte da rotina de muitas adolescentes. O problema é que esses sintomas ainda costumam ser normalizados.
O impacto é sentido também na educação.
Quatro em cada dez meninas brasileiras já faltaram à escola por causa de sintomas relacionados à menstruação, como cólicas, dores no corpo e dores de cabeça.
As desigualdades raciais também aparecem nos dados. Embora meninas brancas relatem dores mais intensas, são as meninas negras que faltam mais às aulas em consequência da menstruação.
Para especialistas, isso evidencia que o impacto do ciclo menstrual vai além da dor física e está diretamente relacionado a fatores sociais, econômicos e estruturais.
Outro dado preocupante mostra que 15% das meninas já perderam aulas por falta de absorventes ou por medo de usar os banheiros da escola. Entre estudantes da rede pública, esse índice sobe para 16,9%.
A percepção das estudantes, inclusive, difere da visão dos adultos. Enquanto muitas adolescentes relatam insegurança em relação aos banheiros escolares, funcionárias das escolas costumam avaliar esses espaços de forma mais positiva, o que pode indicar uma desconexão entre a experiência das alunas e a percepção da gestão escolar.
Segundo Sofia Reinach, a antecipação da menarca exige uma mudança na forma como famílias, escolas e profissionais de saúde abordam o tema.
Se antes a primeira menstruação costumava acontecer na adolescência, hoje muitas meninas passam por essa experiência ainda na infância. Por isso, a especialista defende que pediatras estejam mais preparados para conversar sobre menstruação, acolher dúvidas e orientar crianças e responsáveis.
Outro desafio apontado por Sofia é a falta de produtos pensados especificamente para meninas que acabaram de menstruar.
Segundo ela, existe um "limbo" entre a infância, adolescência e idade adulta: muitas crianças deixam de se identificar com produtos infantis, mas ainda não se reconhecem nas campanhas voltadas para jovens e mulheres adultas.
A especialista também defende que a indústria desenvolva produtos e estratégias de comunicação mais adequados para quem está vivendo a menarca.
Para Sofia, ampliar o debate sobre dignidade menstrual passa, necessariamente, por incluir os meninos nessa conversa.
O objetivo é reduzir o estigma, combater a vergonha e promover ambientes mais acolhedores nas escolas. A educação menstrual de qualidade deve envolver toda a comunidade escolar — e não apenas as meninas.
Garantir acesso a absorventes é fundamental, mas não suficiente. Especialistas defendem que o tema também precisa incluir educação menstrual, acolhimento e infraestrutura adequada nas escolas, com banheiros seguros, limpos e que ofereçam privacidade. Quase 90% das meninas em idade escolar passam de três a sete anos da vida menstruando dentro do ambiente escolar.
Menstruar é um processo natural. O que não pode ser naturalizado é a dor, a vergonha ou a ausência de acolhimento.
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