“Eu resetei minha vida”: após bariátrica, Rúbia conta sua história com obesidade, corpo e maternidade
Farmacêutica esteta relembra a relação emocional com a comida, a resistência em aceitar a cirurgia e as transformações que vieram com o emagrecimento e a chegada dos três filhos
Rúbia Mundim passou anos tentando emagrecer. Fez dietas, praticou atividade física, buscou diferentes tratamentos e chegou a ouvir de um profissional que, se não perdia peso, era porque não tinha “competência”. Mesmo quando a cirurgia bariátrica apareceu como uma possibilidade, resistiu durante um ano à ideia de que precisava daquele tratamento.
Até que uma noite, sentada no sofá de casa, percebeu que estava usando a comida mais uma vez para lidar com as próprias emoções. Depois de comer vários bombons em sequência, vieram a vergonha e a culpa.
“Eu senti vergonha e muita culpa. Eu falei assim: ‘Gente, eu tô me matando. Eu tô aqui comendo copiosamente como se comer esse bombom fosse resolver todos os problemas e não vai’.”
Foi depois daquele episódio que decidiu voltar ao cirurgião. A cirurgia aconteceu em novembro de 2019 e marcou o início de uma transformação que, para ela, foi muito além dos quilos perdidos.
Rúbia conta que não viveu com obesidade durante toda a vida. Na infância, chegou a fazer tratamento para ganhar peso. Mais tarde, porém, passou a recorrer à comida para lidar com frustrações e outros momentos difíceis.
“Eu sempre descontei muitas questões em relação à comida. A frustração, me chateava, eu ia lá e descontava tudo na alimentação, comendo pacotes e pacotes. Sempre tive muito problema com doce, com açúcar, com sobremesa.”
Depois dos 30 anos, controlar o peso ficou ainda mais difícil. A morte do pai, a depressão e as questões relacionadas ao desejo de engravidar atravessaram esse período. “Foi quando eu me abandonei”, conta.
Ela própria demorou a perceber o quanto seu corpo havia mudado. Uma das situações que a fizeram se dar conta aconteceu quando procurava uma roupa para dar uma palestra. Pediu uma calça maior à vendedora e ouviu que aquele já era o maior tamanho disponível na loja: 46.
A possibilidade da cirurgia bariátrica surgiu inicialmente em uma conversa com a ginecologista. Rúbia tinha diagnóstico de endometriose e conta que sempre ouvira que seria difícil ser mãe. Naquele momento, a médica chamou sua atenção também para a obesidade e sugeriu que considerasse a cirurgia.
A reação foi de indignação.
“Eu fui para casa indignada, revoltada da vida. Quem que ela tá pensando que é? Uma cirurgia bariátrica? Mas eu não tenho a menor necessidade.”
Na época, Rúbia pesava cerca de 100 quilos e mede 1,58 m. Ainda assim, demorou a reconhecer a bariátrica como uma possibilidade para si. Tentou novamente emagrecer por outros caminhos e, em uma dessas tentativas, ouviu de um profissional: “Se você não tá perdendo peso, é porque você não tem competência.”
O estigma em torno da cirurgia também pesava. Tanto que Rúbia inicialmente disse à própria mãe que faria uma cirurgia de vesícula.
“Eu tinha um pouco de vergonha de falar que era uma cirurgia bariátrica. Passei muito por isso, de não assumir que era uma cirurgia bariátrica, porque parecia que era uma incompetência minha.”
A decisão levou cerca de um ano. E havia outro medo envolvido. Rúbia havia perdido o pai em 2018, após complicações de uma cirurgia durante o tratamento de um câncer de pâncreas. Já na sala de preparo para a bariátrica, sozinha, chegou a questionar se deveria seguir em frente.
“Eu comecei a entrar com medo. Eu falei: ‘Gente, será que eu vou? Será que eu não vou? Será que eu faço? Será que eu não faço?’”
Grande parte do emagrecimento aconteceu durante a pandemia, período que Rúbia descreve como um processo muito íntimo. Ela havia feito um sleeve gástrico e conta que, desde o início, encarou a cirurgia como uma ferramenta que exigiria mudanças também na maneira como se relacionava com a comida e com a própria saúde.
“Eu brinco muito com o César que ele não reduziu o meu estômago, ele apertou um parafuso na cabeça, porque foi uma viradinha de chave mesmo, mental.”
Mas o emagrecimento trouxe uma experiência que ela não esperava. No auge da perda de peso, chegou aos 53 quilos e, novamente, não conseguia reconhecer o próprio corpo — dessa vez, porque se enxergava magra demais.
“Da mesma forma como eu não me via pessoa gordinha, eu me olhava naquela pessoa magra demais e eu não me reconhecia. [...] Eu entrava em loja para comprar roupa, eu ainda pedia G e eu tava tipo PP, eu tava usando 36 com ajuste e não me reconhecia mesmo.”
Ao perceber também uma perda importante de massa magra, procurou acompanhamento e passou a treinar com o objetivo de recuperar massa muscular. Queria chegar aos 60 quilos, peso em que dizia olhar para si mesma e pensar: “É isso aqui que eu quero”. Hoje, oscila entre 63 e 64 quilos e considera esse um peso confortável.
A mudança do corpo também fez Rúbia perceber algo que ia além da própria imagem: o comportamento das pessoas em relação a ela havia mudado.
Ela cita como exemplo o ambiente profissional, onde atua como professora. Conta que, quando tinha obesidade, a disposição das pessoas para ajudá-la em situações cotidianas era diferente da que encontra hoje.
“A sociedade ainda tem muito preconceito com isso. Ela não é acolhedora.”
Ter vivido o antes e o depois no mesmo ambiente tornou essa percepção ainda mais clara.
“Eu passei pelas duas vertentes, estando no mesmo ambiente de trabalho. Era uma situação, um tratamento mais assim, um zero cuidado, e depois passar a ter mais zelo, mais trato, mais jeito.”
A maternidade já fazia parte dos planos de Rúbia antes da cirurgia. Além da obesidade, havia o diagnóstico de endometriose e um histórico de ciclos irregulares. Ela conta, porém, que não chegou a passar por tentativas efetivas de engravidar antes da bariátrica.
Depois da cirurgia e da liberação médica, Rúbia e o marido começaram a tentar. Foram cerca de oito meses. Quando já começava a considerar a possibilidade de buscar tratamento para fertilidade, descobriu que estava grávida de Joaquim.
“E aí no mês seguinte, graças a Deus, veio Joaquim.”
Rúbia acredita que a bariátrica teve um papel importante em sua trajetória até a maternidade, embora reconheça que não é possível saber o que teria acontecido sem a cirurgia.
“Definitivamente a bariátrica ajudou muito em muitos processos e para eu conseguir alcançar esse objetivo, porque talvez se eu tivesse lá naquela casinha dos 100 kg, poderia ter sido mãe? Talvez sim.”
A gravidez, no entanto, trouxe de volta um medo que parecia pertencer ao passado: engordar.
“Eu tinha inclusive muito medo. [...] ‘Gente, mas e se eu engordar de novo? Se eu voltar para aquele lugar? Eu não quero estar mais naquele lugar novamente.’ Eu tinha um pânico de ter que voltar pros 80, 90 kg.”
Quando chegou aos 84 quilos durante a gestação, conta que precisou lembrar a si mesma de que aquele número tinha outro significado. O acompanhamento nutricional também a ajudou a deslocar a atenção do peso isolado na balança para a composição corporal.
A gestação de Joaquim teve muitos enjoos, azia e episódios de hipoglicemia. Como conseguia ingerir um volume menor de alimentos, recebeu orientação médica para comer com mais frequência ao longo do dia. Para Rúbia, isso exigiu outra adaptação: depois de anos tentando abandonar o hábito de “beliscar”, precisou entender que, naquele momento, fracionar as refeições tinha outra finalidade. Ainda assim, considera que teve uma gestação tranquila.
Dois anos depois, enquanto fazia uma avaliação médica por causa do refluxo e discutia a possibilidade de uma nova intervenção, veio outra surpresa. Rúbia descobriu que estava grávida novamente. Poucos dias depois, soube que eram gêmeas.
“Na quinta eu descobri que eram gêmeas.”
A gestação aconteceu naturalmente, sem tratamento de fertilidade. Hoje, pela pequena diferença de idade entre Joaquim e as meninas, ela brinca que é mãe de seus “três gêmeos”.
Ao olhar para a própria trajetória, Rúbia faz questão de afastar a ideia de que a cirurgia bariátrica representou um caminho fácil. Para ela, o procedimento foi uma ferramenta dentro de um processo que exige acompanhamento e continua mesmo anos depois.
“A cirurgia não resolve o problema, ela te ajuda muito, ela é uma ferramenta importantíssima, mas é preciso tá acompanhando com nutricionista, tá fazendo seus exames regularmente, tá alinhado com a sua terapia.”
Hoje, quando escuta que “não tem cara” de quem fez bariátrica, responde de maneira simples:
“Mas não é para ter cara de doente, gente. É para ganhar saúde, não para perder saúde.”
A mulher que um dia teve vergonha de contar à própria mãe que faria uma bariátrica diz que faria a mesma escolha novamente. Ao falar com quem vive hoje as dúvidas que ela teve antes da cirurgia, recomenda buscar informação, profissionais com quem se sinta acolhida e acompanhamento multidisciplinar.
“É preciso entender que não é o caminho mais fácil.”
Para Rúbia, porém, foi uma decisão que dividiu sua história em antes e depois.
“Definitivamente foi a melhor escolha que eu fiz em toda a minha vida.”
E, ao resumir o que mudou desde novembro de 2019, escolhe uma frase que vai muito além do número que passou a ver na balança:
“Eu resetei minha vida, nasci de novo e nasci melhor.”
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