Obesidade pode aumentar o risco de hemorroidas? Entenda a relação

Obesidade pode aumentar o risco de hemorroidas? Entenda a relação
Crédito: Imagem gerada por IA/Chat GPT

Excesso de peso, gordura abdominal e alterações metabólicas aparecem associados à doença hemorroidária, mas especialista explica que não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito

Hemorroidas costumam ser associadas à constipação e ao esforço para evacuar. Mas estudos recentes também têm encontrado uma relação entre a doença hemorroidária e condições como obesidade, diabetes e hipertensão, levantando uma questão: a saúde metabólica também pode influenciar o aparecimento ou a piora do problema?

Uma revisão científica publicada em 2025, que reuniu dados de mais de 8,9 milhões de pessoas em 45 países, estimou que cerca de 26% da população mundial apresenta doença hemorroidária. Apesar da frequência, o problema ainda é cercado por constrangimento.

“A doença hemorroidária é muito mais frequente do que se imagina, mas ainda é considerada um tabu e muitos pacientes têm vergonha de procurar um médico com essas queixas”, afirma o gastrocirurgião Dr. Alvaro Faria, da Clínica Gastro ABC.

Para explicar o problema, o especialista compara as hemorroidas a “varizes” localizadas na região do ânus e do reto baixo. Todos possuem veias nessa região, mas, em algumas pessoas, elas podem se dilatar ao longo do tempo. Entre os fatores que podem favorecer esse processo, Faria cita constipação crônica, esforço para evacuar, gestação e predisposição genética.

Quando obesidade e doenças metabólicas entram nessa equação, porém, é preciso fazer uma distinção importante: associação não significa necessariamente causa.

“Embora a obesidade, o diabetes e a síndrome metabólica não sejam a causa direta das hemorroidas, eles criam um ambiente no organismo que favorece o aparecimento e a piora do problema”, explica.

Segundo Faria, essas condições podem funcionar como um “peso extra” sobre as veias da região anal. Ao longo do tempo, essa sobrecarga poderia favorecer a dilatação dos vasos, o prolapso dos tecidos e sintomas como sangramento, dor e desconforto.

O papel da gordura abdominal

Um dos possíveis mecanismos apontados pelo médico envolve justamente a pressão exercida dentro do abdome.

“A obesidade, especialmente a gordura acumulada no abdome, aumenta a pressão dentro da barriga. Essa pressão dificulta o retorno do sangue das veias da região anal, favorecendo a dilatação das hemorroidas”, explica.

O sedentarismo também aparece nessa relação. Faria lembra que ele frequentemente está associado à obesidade e pode contribuir tanto para o desenvolvimento da doença quanto para a piora dos sintomas.

A relação com a saúde metabólica, no entanto, é mais complexa do que atribuir o problema diretamente ao excesso de peso. O especialista destaca que ainda não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre doenças metabólicas e hemorroidas.

No caso do diabetes, por exemplo, estudos já observaram maior frequência de doença hemorroidária e diferenças em marcadores metabólicos. Para Faria, uma das hipóteses é que as alterações sistêmicas provocadas pelas doenças metabólicas contribuam para um ambiente mais favorável ao aparecimento do problema ou à piora dos sintomas em quem já tem predisposição.

“Não devemos esquecer que nas doenças metabólicas existe uma associação com hábitos alimentares ruins e o sedentarismo, que também contribuem para a piora do quadro”, acrescenta.

Assim, obesidade, diabetes ou hipertensão não devem ser interpretados isoladamente como responsáveis pelas hemorroidas. A própria resposta do especialista aponta para um cenário em que fatores metabólicos, circulatórios e comportamentais podem coexistir.

Nem todo sangramento é hemorroida

Há ainda outro alerta importante. Sangramento, dor, desconforto ou o aparecimento de um caroço na região anal não significam automaticamente que a pessoa tenha hemorroidas.

“Qualquer sangramento, qualquer dor, qualquer desconforto ou caroço, o pessoal já automaticamente atribui isso à doença hemorroidária, às hemorroidas. Não é, necessariamente.”

Faria explica que sintomas semelhantes podem estar relacionados a outras doenças da região, como a fissura anal. Por isso, recomenda procurar avaliação médica sempre que essas manifestações aparecerem.

E mesmo quem já realizou uma colonoscopia não deve considerar que o exame, sozinho, descartou todas as possíveis alterações na região anal.

“A colonoscopia é um exame que avalia muito bem o intestino grosso e é importante na prevenção de doenças como o câncer intestinal. Mas a colonoscopia não avalia bem o canal anal e o ânus, como muitas pessoas acham erroneamente.”

Segundo o gastrocirurgião, nesses casos, a avaliação clínica e o exame realizados pelo médico continuam sendo fundamentais para identificar a origem dos sintomas.

A doença hemorroidária, portanto, não deve ser vista apenas como consequência de constipação ou esforço para evacuar. As respostas de Faria apontam para uma possível relação também com obesidade e alterações metabólicas, mas sem estabelecer uma causa direta. E, diante de sangramento, dor ou qualquer alteração na região anal, o diagnóstico não deve ser feito por conta própria.