A obesidade não acabou com a chegada das canetas emagrecedoras. Mas o preconceito pode estar mudando.

A obesidade não acabou com a chegada das canetas emagrecedoras. Mas o preconceito pode estar mudando.
Photo by Joachim Schnürle / Unsplash

No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, uma reflexão sobre a banalização dos medicamentos para emagrecer, a desigualdade no acesso ao tratamento e o risco de novas formas de preconceito.

Nos últimos anos, acompanhei uma transformação que, durante muito tempo, parecia distante da realidade de quem vive com obesidade. A medicina avançou, novos medicamentos chegaram ao mercado e, pela primeira vez, muitas pessoas passaram a enxergar possibilidades de tratamento que antes não existiam.

Como jornalista que acompanha esse universo e como alguém que convive com a obesidade há muitos anos, vejo esses avanços com entusiasmo. Sei o quanto é difícil viver com uma doença que, durante tanto tempo, foi tratada como consequência da falta de disciplina ou de força de vontade.

Mas, ao mesmo tempo em que celebro as conquistas da medicina, uma questão tem me incomodado cada vez mais: será que estamos realmente aprendendo a tratar a obesidade como doença ou apenas encontramos novas maneiras de cobrar que as pessoas emagreçam?

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras trouxe uma mudança importante na maneira como a sociedade fala sobre o peso. Medicamentos que representam um avanço no tratamento da obesidade passaram a ocupar conversas, redes sociais, manchetes e até memes.

E, nesse processo, tenho percebido algo que me preocupa: a banalização do tratamento.

Hoje, vemos pessoas que desejam perder poucos quilos, muitas vezes sem obesidade, sobrepeso ou doenças associadas, recorrendo a medicamentos desenvolvidos para condições que exigem acompanhamento médico. A busca por um corpo mais magro parece, em alguns momentos, se sobrepor à discussão sobre saúde.

Não se trata de julgar quem utiliza esses medicamentos. Trata-se de questionar o que estamos fazendo com uma conquista tão importante da medicina.

Porque, enquanto as canetas se transformam em símbolo de uma nova era do emagrecimento, quem vive com obesidade continua enfrentando dificuldades que não desapareceram com a chegada desses tratamentos.

E talvez esteja começando a enfrentar outras.

Durante muito tempo, pessoas com obesidade ouviram que bastava fechar a boca, fazer exercícios e ter força de vontade. A doença era reduzida a uma questão de comportamento, e o fracasso de uma dieta era interpretado como fracasso pessoal.

Agora, tenho a impressão de que estamos caminhando para uma nova cobrança: se existem medicamentos capazes de proporcionar uma perda de peso significativa, por que você ainda não emagreceu?

É como se a existência de um tratamento fosse suficiente para garantir que todas as pessoas pudessem utilizá-lo e obter os mesmos resultados.

Mas não é assim.

Nem todas as pessoas respondem da mesma maneira aos medicamentos. Nem todas conseguem alcançar a perda de peso que esperavam. Algumas precisam de outras estratégias terapêuticas. Outras convivem com uma doença de longa duração, marcada por sucessivas tentativas de tratamento e episódios de reganho de peso.

E existe uma questão que não pode ser ignorada: nem todas podem pagar.

Os medicamentos mais recentes para obesidade ainda representam um custo elevado para grande parte da população brasileira. E não estamos falando necessariamente de um tratamento de poucas semanas, mas do cuidado de uma doença crônica, que pode exigir acompanhamento e tratamento prolongados.

É justamente nesse ponto que minha preocupação aumenta.

Será que, além do preconceito relacionado ao peso, começaremos a conviver também com um preconceito relacionado à condição financeira?

Será que a pessoa com obesidade passará a ser julgada não apenas por não emagrecer, mas por não conseguir pagar pelo tratamento que hoje parece estar ao alcance de todo mundo?

Essa percepção de que a obesidade estaria com os dias contados já aparece até em memes nas redes sociais. Alguns brincam que, com a popularização das canetas, pessoas com obesidade entrarão em extinção.

Sei que muitas dessas publicações são feitas em tom de humor. Mas confesso que não consigo enxergá-las apenas como uma brincadeira.

Porque, por trás da piada, existe uma ideia perigosa: a de que a obesidade seria um problema simples, prestes a desaparecer graças a uma solução que agora estaria disponível para todos.

E isso está muito distante da realidade.

A obesidade não é uma condição que desaparece simplesmente porque surgiram medicamentos mais eficazes. É uma doença crônica, complexa e influenciada por diferentes fatores. Seu tratamento exige acompanhamento, individualização e, principalmente, acesso.

Eu conheço bem a frustração de tentar emagrecer e não conseguir. Conheço a sensação de olhar para o próprio corpo e acreditar que deveria estar fazendo mais. Conheço o medo do reganho e a cobrança que muitas vezes parte de nós mesmos.

Passei por diferentes fases dessa relação com o peso. Vivi a anorexia, a obesidade, inúmeras tentativas de emagrecimento e, mais recentemente, a cirurgia bariátrica.

E, se existe algo que essa trajetória me ensinou, é que o peso corporal não conta toda a história de uma pessoa.

Hoje, mesmo depois de emagrecer, continuo enxergando a obesidade como parte da minha história e como uma condição que exige atenção contínua. Não considero que a doença tenha simplesmente desaparecido porque o número na balança mudou.

Talvez por isso me incomode tanto perceber que, enquanto a medicina começa a compreender cada vez melhor a complexidade da obesidade, parte da sociedade parece caminhar na direção contrária, simplificando novamente o problema.

Antes, a solução parecia ser uma dieta. Agora, para muita gente, parece ser uma caneta.

Mas nenhuma dessas visões consegue traduzir o que significa viver com uma doença crônica.

Não quero diminuir a importância dos novos medicamentos. Pelo contrário. Acredito que eles representam uma das maiores transformações recentes no tratamento da obesidade e que muitas pessoas podem se beneficiar dessas terapias.

O que questiono é a distância entre a revolução que vemos nas redes sociais e a realidade de quem precisa de tratamento.

De que adianta termos ferramentas cada vez mais eficazes se elas continuam inacessíveis para uma parcela significativa da população?

E de que adianta reconhecer a obesidade como doença se continuamos julgando as pessoas pelo tamanho do corpo ou pela maneira como escolhem, conseguem ou não conseguem tratá-la?

Neste Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, minha reflexão vai além da importância de prevenir a doença ou ampliar as possibilidades terapêuticas.

Precisamos discutir também como garantir que os avanços da medicina não se transformem em mais um fator de desigualdade.

E, principalmente, precisamos evitar que a popularização dos tratamentos produza uma nova forma de estigma.

Porque a obesidade não acabou.

As pessoas que vivem com ela continuam existindo, enfrentando desafios e buscando caminhos para cuidar da própria saúde.

O que eu espero é que, no futuro, não precisemos escolher entre celebrar os avanços da medicina e defender o respeito por quem ainda não consegue se beneficiar deles.

Afinal, uma verdadeira revolução no tratamento da obesidade não acontece quando as pessoas com a doença desaparecem das fotografias ou das redes sociais.

Ela acontece quando todas têm a oportunidade de receber cuidado, independentemente do peso que carregam ou do dinheiro que têm.