Musculação pode agir sobre a gordura antes da perda de peso? Entenda o que diz o estudo

Musculação pode agir sobre a gordura antes da perda de peso? Entenda o que diz o estudo
Photo by Silje Roseneng / Unsplash

Pesquisa com camundongos identificou células de gordura menores e mudanças no metabolismo após sete dias de treinamento de força; resultados ainda precisam ser confirmados em humanos.

Após sete dias de treinamento, animais obesos apresentaram células de gordura menores e mudanças em proteínas envolvidas na mobilização de lipídios. Os resultados ainda precisam ser confirmados em seres humanos.

A balança não é a única forma de perceber os efeitos do exercício. Antes que o peso corporal comece a diminuir, o treinamento de força já pode provocar mudanças no funcionamento do tecido adiposo — pelo menos foi o que pesquisadores observaram em camundongos obesos.

Um estudo realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou alterações no metabolismo da gordura localizada ao redor do intestino depois de sete dias de treinamento de força. Embora os animais não tenham perdido peso durante esse período, apresentaram células de gordura menores, redução da massa de tecido adiposo mesentérico e maior ativação de mecanismos moleculares associados à mobilização da gordura armazenada.

O trabalho foi publicado na revista científica Life Sciences e investigou uma questão específica: o que acontece com o tecido adiposo logo no início de uma rotina de treinamento, antes que o emagrecimento possa influenciar os resultados?

Para responder a essa pergunta, os pesquisadores utilizaram camundongos Swiss machos submetidos durante 14 semanas a uma dieta com alto teor de gordura. Depois desse período, parte dos animais realizou um protocolo curto de treinamento de força, com intensidade correspondente a 70% de sua capacidade de carga.

Ao analisar o tecido adiposo mesentérico, os cientistas observaram que a obesidade havia prejudicado o funcionamento de proteínas importantes para a lipólise, processo pelo qual os triglicérides armazenados nas células de gordura são mobilizados. O treinamento conseguiu reativar parte desse mecanismo.

Uma das principais mudanças ocorreu na ABHD5, proteína que ajuda a ativar a ATGL, enzima envolvida na primeira etapa da quebra dos triglicérides. Após o treinamento, houve aumento tanto da expressão do gene relacionado à ABHD5 quanto da quantidade dessa proteína no tecido adiposo. Também foram observadas alterações na PLIN1 e na HSL, outras proteínas que participam da regulação da lipólise.

Em termos simples, o tecido adiposo dos animais treinados passou a apresentar mais sinais de que estava preparado para mobilizar a gordura armazenada. O estudo também encontrou mudanças em marcadores ligados à composição dos lipídios e à reorganização estrutural desse tecido.

Esses resultados ajudam a ampliar a forma como os efeitos da atividade física são avaliados. Quando alguém começa a treinar e não percebe uma mudança imediata no peso, pode ter a impressão de que o exercício não está funcionando. A pesquisa sugere que algumas adaptações metabólicas podem surgir antes de qualquer alteração visível na balança.

Isso não significa, no entanto, que os pesquisadores tenham demonstrado uma “queima de gordura” direta. O estudo avaliou principalmente a expressão de genes, a quantidade e a ativação de proteínas e outros sinais moleculares relacionados à lipólise. Os cientistas não mediram diretamente o fluxo de gordura liberada pelas células nem acompanharam se ela foi efetivamente utilizada como fonte de energia.

Também não é possível concluir que uma semana de musculação provocará os mesmos efeitos em pessoas. O experimento foi realizado exclusivamente com camundongos machos, analisou apenas um depósito de gordura e utilizou um protocolo adaptado para animais. Diferenças de sexo, idade, alimentação e condições metabólicas também podem modificar a resposta ao exercício.

Ainda assim, o estudo reforça que o treinamento de força não atua apenas sobre os músculos. O tecido adiposo é metabolicamente ativo e pode responder aos estímulos do exercício mesmo antes da redução do peso corporal. Isso também ajuda a questionar a ideia de que somente atividades aeróbicas teriam efeito sobre a gordura, enquanto a musculação serviria exclusivamente para o ganho de massa muscular.

Exercícios aeróbicos e de força produzem adaptações diferentes e complementares. Na prática, a escolha e a combinação das modalidades devem considerar as condições de saúde, os objetivos e as possibilidades de cada pessoa, de preferência com orientação profissional.

A principal mensagem da pesquisa, portanto, não é que sete dias de musculação sejam suficientes para emagrecer. O que os resultados mostram é que o organismo pode começar a responder ao treinamento antes que essa resposta se transforme em um número menor na balança.

O estudo não relatou conflitos de interesse e recebeu financiamento de CNPq, Capes e FAPESP.