Canetas para emagrecer: quando náusea, prisão de ventre e refluxo deixam de ser esperados?

Canetas para emagrecer: quando náusea, prisão de ventre e refluxo deixam de ser esperados?
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Gastroenterologistas observam aumento das queixas digestivas entre usuários de medicamentos à base de GLP-1. Especialistas explicam por que esses efeitos acontecem e em quais situações é importante procurar avaliação médica.

Os medicamentos à base de semaglutida e outros agonistas do GLP-1 transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 nos últimos anos. Ao mesmo tempo, gastroenterologistas têm observado um aumento na procura de pacientes que apresentam desconfortos digestivos durante o tratamento.

Náusea, sensação de estômago cheio por mais tempo, prisão de ventre, refluxo, distensão abdominal e episódios de diarreia estão entre as queixas mais frequentes nos consultórios.

Segundo a Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), esses sintomas costumam estar relacionados ao próprio mecanismo de ação dos medicamentos, que retardam o esvaziamento do estômago para aumentar a sensação de saciedade.

"Os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 atuam em hormônios envolvidos no controle do apetite e da digestão. Como consequência, o alimento permanece mais tempo no estômago, aumentando a sensação de saciedade. Esse mecanismo é importante para a perda de peso, mas também explica sintomas como náusea, sensação de empachamento e constipação observados em parte dos pacientes", explica a gastroenterologista Lourianne Cavalcante, da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Os sintomas digestivos observados pelos gastroenterologistas também foram descritos nos principais estudos clínicos com essa classe de medicamentos. Um ensaio clínico publicado no New England Journal of Medicine mostrou que náusea, diarreia, vômitos e constipação estavam entre os eventos adversos mais frequentes durante o tratamento com semaglutida para obesidade. Na maioria dos casos, os sintomas foram classificados como leves a moderados e diminuíram à medida que o organismo se adaptou ao medicamento.

Os sintomas costumam aparecer nas primeiras semanas

Os efeitos gastrointestinais tendem a surgir principalmente no início do tratamento ou durante o aumento das doses.

"A maioria dos efeitos gastrointestinais tende a surgir nas primeiras semanas de tratamento ou durante o aumento das doses. Em muitos casos, eles diminuem à medida que o organismo se adapta ao medicamento. Ainda assim, sintomas persistentes ou intensos devem ser avaliados por um médico", afirma a especialista.

Além da náusea e da constipação, alguns pacientes também relatam digestão lenta, desconforto abdominal, redução importante do apetite e alterações no hábito intestinal.

Segundo a médica, esses sintomas variam de pessoa para pessoa e podem ser influenciados pela alimentação, pela dose utilizada e por condições clínicas pré-existentes.

Microbiota intestinal ainda é alvo de pesquisas

Outro tema que tem despertado interesse da comunidade científica é a possível influência dos agonistas do GLP-1 sobre a microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no intestino e participam da digestão, do metabolismo e da imunidade.

Pesquisadores também investigam uma possível relação entre essas medicações e o supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO), condição que pode intensificar sintomas como gases, distensão abdominal e alterações intestinais.

Segundo Lourianne Cavalcante, porém, ainda não existem respostas definitivas.

"A microbiota intestinal participa de diversos processos relacionados ao metabolismo, à imunidade e à saúde digestiva. Ainda existem estudos em andamento para compreender melhor como essas medicações influenciam esse ecossistema, mas é um campo que tem despertado grande interesse da comunidade científica."

Quando é hora de relatar os sintomas ao médico?

Embora muitos sintomas sejam considerados esperados durante o tratamento, eles não devem ser ignorados quando passam a interferir na rotina ou na qualidade de vida.

A Federação Brasileira de Gastroenterologia orienta que pacientes comuniquem ao médico caso apresentem:

  • dor abdominal importante;
  • vômitos frequentes;
  • náusea persistente que dificulte a alimentação;
  • prisão de ventre ou diarreia que não melhoram;
  • alterações intestinais que comprometam a rotina.

Mais do que aliviar o desconforto, a avaliação permite verificar se os sintomas fazem parte da adaptação ao medicamento ou se há outra condição clínica associada.

Tratamento exige acompanhamento médico

Para a Federação Brasileira de Gastroenterologia, uma das maiores preocupações atualmente é o aumento do uso dessas medicações sem acompanhamento médico.

"Esses medicamentos representam um avanço importante no tratamento da obesidade e do diabetes, mas não devem ser utilizados sem acompanhamento médico. A indicação adequada, o monitoramento dos efeitos adversos e a orientação nutricional são fundamentais para garantir segurança e melhores resultados para os pacientes", conclui Lourianne Cavalcante.