Passei a vida tentando emagrecer. Só depois entendi que a minha relação com a comida estava doente.
Aqui na HealthRadarBR existe uma editoria chamada HRB Histórias. Ela nasceu da ideia de que saúde não é apenas estatística, estudo científico ou resultado de exame. Saúde também é vida real.
É o que acontece dentro de casa. É o que as pessoas vivem em silêncio. É a forma como convivem com doenças, enfrentam transformações ou cuidam de quem amam.
Nesta semana, em que é celebrado o Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares, decidimos contar a história de uma pessoa que convive com esse problema há décadas.
E essa pessoa sou eu.
Aliás, se você ainda não me conhece, eu me chamo Mariana Verdelho. Sou jornalista, fundadora da HealthRadarBR e passei boa parte da minha vida acreditando que seria mais feliz se tivesse outro corpo.
Por muitos anos, achei que a minha história era sobre obesidade. Hoje entendo que ela começou muito antes.
Começou na infância.
Eu não me lembro exatamente quando passei a acreditar que havia algo errado com o meu corpo. Mas lembro que cresci ouvindo comentários sobre peso, aparência e emagrecimento. Curiosamente, não eram as crianças que me faziam sentir inadequada. Eu não sofria bullying na escola. Não era chamada de gorda pelos colegas.
As mensagens vinham dos adultos.
Talvez por isso eu tenha crescido acreditando que aquela barriga levemente saliente era um problema a ser resolvido. Talvez uma geração que sonhava em ser a Xuxa ou uma das Paquitas tivesse dificuldade para aceitar um corpo que fugia um pouco do padrão.
O fato é que aprendi muito cedo que emagrecer parecia ser importante.
E passei a agir como alguém que acreditava nisso.
Ainda criança, jogava comida fora escondida dos meus pais porque não queria comer. Em outros momentos, fazia exatamente o contrário. Quando tinha acesso aos alimentos que considerava proibidos, como hambúrguer, batata frita ou doces, perdia completamente o controle.
Na época, eu não sabia explicar o que acontecia.
Hoje percebo que a minha relação com a comida já era marcada por culpa, restrição e compensação.
Na faculdade, a busca pelo corpo ideal ficou ainda mais intensa. Sonhando em trabalhar na televisão, procurei ajuda para emagrecer e passei a usar medicamentos controlados. Em pouco tempo, cheguei aos 45 kg distribuídos em 1,68 metro de altura.
Era o corpo que eu acreditava desejar.
Durante anos, eu tinha sonhado com aquele resultado. Achava que, quando fosse magra, me sentiria mais bonita, mais segura, mais feliz.
Mas não foi isso que aconteceu.
Parei de menstruar. Meu cabelo caiu. Pessoas próximas demonstravam preocupação com a minha aparência. Algumas perguntavam se eu estava doente. Outras queriam saber qual era o segredo.
Eu não me via magra.
Uma amiga costuma lembrar que, quando eu interrompia a medicação, parecia uma máquina de comer trufas de chocolate. Hoje essa lembrança me faz refletir sobre algo importante: eu não estava em paz com a comida nem quando estava muito magra.
O peso tinha mudado.
O sofrimento não.
Os anos passaram, vieram novas dietas, novas tentativas de emagrecimento, novos ciclos de restrição e culpa. Até que um dia a balança ultrapassou os três dígitos.
Cheguei aos 104 kg.
E o mais curioso é que eu também não me enxergava daquela forma.
Eu não me vi magra quando parei de menstruar e perdi cabelo por estar magra demais.
Também não me vi obesa quando cheguei aos três dígitos na balança.
Nem sempre o espelho mostrava aquilo que eu conseguia enxergar.
Conversando com especialistas ao longo dos anos, aprendi que os transtornos alimentares nem sempre aparecem da forma que imaginamos. Eles podem começar muito antes de um diagnóstico formal. Muitas vezes surgem na infância, na forma como aprendemos a olhar para a comida, para o corpo e para nós mesmos.
Foi uma descoberta difícil.
Porque me obrigou a entender que a minha história nunca foi apenas sobre peso.
Era sobre a relação que eu construí com a comida.
Era sobre passar décadas acreditando que o meu corpo precisava ser corrigido.
Hoje, depois da bariátrica, consigo reconhecer o meu tamanho. Consigo olhar para fotos e enxergar diferenças que antes não via. Mas isso não significa que a relação com a comida tenha se tornado simples.
O medo de exagerar continua existindo.
O receio de perder o controle também.
A terapia ajuda. O conhecimento ajuda. O tratamento ajuda.
Mas talvez a melhor palavra seja vigilância.
Porque algumas pessoas convivem a vida inteira monitorando a pressão arterial. Outras acompanham a glicemia. Eu aprendi que também preciso observar constantemente a minha relação com a comida.
Não porque quero ser magra.
Mas porque quero ser saudável.
Contar essa história não é um exercício de exposição. É um exercício de honestidade.
Se a HealthRadarBR existe para falar de saúde com informação, ciência e humanidade, fazia sentido começar esta conversa dizendo algo que demorei muitos anos para entender.
Durante muito tempo, achei que estava lutando contra a obesidade.
Hoje entendo que a batalha começou muito antes dela.
Começou quando uma menina aprendeu a acreditar que o próprio corpo precisava ser consertado.
E talvez seja justamente por isso que a conversa sobre transtornos alimentares precise começar na infância.
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