Creatina, whey, vitaminas: quando a suplementação pode afetar os rins?
Creatina em doses adequadas não prejudica rins saudáveis, segundo nefrologista, mas excesso de proteínas e de algumas vitaminas exige atenção
Creatina, whey protein, vitaminas, glutamina. A lista de suplementos presentes na rotina de quem treina não para de crescer. Nas prateleiras dos supermercados, até alimentos do dia a dia ganharam versões com mais proteína. Mas, em meio à busca por ganho de massa muscular e uma alimentação considerada mais “fit”, surge uma dúvida: até que ponto suplementar é seguro para os rins?
Para o nefrologista Bruno Biluca, da Fenix Nefrologia, a primeira questão é separar um dos principais mitos relacionados ao tema: para pessoas com rins saudáveis, a creatina, quando utilizada em doses adequadas, não faz mal aos rins.
“Para quem tem um rim saudável, pode tomar creatina, tá? A creatina não faz mal pro rim”, afirma. Segundo o médico, uma dose entre 3 e 5 gramas por dia é considerada segura.
Parte da fama de que o suplemento prejudicaria a função renal, explica Biluca, está relacionada justamente a um dos exames utilizados para avaliar o funcionamento dos rins: a creatinina.
A creatina fica armazenada nos músculos e participa do processo de produção de energia para a contração muscular. Nesse processo, há produção de creatinina, um metabólito que circula no sangue e é eliminado principalmente pela urina. Quando há suplementação de creatina, portanto, a creatinina medida no exame de sangue pode aumentar.
“Quando você for fazer o exame de sangue, a sua creatinina vai estar mais alta. Então, por muito tempo, você achou que, nossa, creatinina tá mais alta, fez mal pro meu rim. Mas a verdade não é essa, é que ela está falseando a leitura do exame”, explica.
Ter histórico de cálculo renal também não significa, segundo o nefrologista, que a pessoa não possa usar creatina. E não é necessário aumentar a ingestão de água especificamente porque começou a tomar o suplemento.
“Ela pode tomar. Não é porque ela está tomando a creatina que ela tem que tomar mais água.”
Quem já teve pedra nos rins, no entanto, deve ter uma atenção maior à hidratação independentemente da creatina. Como referência para uma hidratação basal, Biluca cita cerca de 35 ml de água por quilo de peso corporal ao dia e explica que pessoas com histórico de cálculos devem buscar uma hidratação maior.
Quando o assunto é formação de cálculos, o nefrologista chama a atenção para uma combinação bastante comum: muita proteína de origem animal, excesso de sal e pouca água. É o que ele chama de “combinação do churrasco”.
“Esses três quando combinados aumentam muito a probabilidade de você formar pedra nos rins.”
Nem toda vitamina é inofensiva
Se a creatina ganhou fama de vilã dos rins, outros produtos muitas vezes consumidos sem a mesma preocupação merecem atenção. É o caso das vitaminas.
Biluca cita a vitamina C como exemplo. Segundo ele, o consumo exagerado aumenta a excreção renal de oxalato e pode favorecer a formação de cálculos de oxalato de cálcio em pessoas predispostas.
“Eu falo para essas pessoas que tomam vitamina C de forma exagerada, né? Eu falo assim, ó, você tá só perdendo vitamina C no xixi e com risco de formar pedra nos rins.”
Segundo o médico, para quem mantém uma hidratação normal, consome frutas e tem uma boa alimentação, não há necessidade de suplementar vitamina C indiscriminadamente.
O alerta é ainda maior com as vitaminas lipossolúveis, que podem se acumular no organismo. Durante a entrevista, Biluca cita as vitaminas A, D e E e destaca a vitamina D pelo risco associado ao excesso.
“Como é vitamina, as pessoas acham que quanto mais melhor. Mas não é verdade.”
O nefrologista afirma que solicita a dosagem de vitamina D para seus pacientes e faz suplementação quando necessário, mas ressalta que a reposição deve ser feita na quantidade adequada. Em excesso, explica, a vitamina D pode aumentar muito a absorção de cálcio, provocar hipercalcemia e comprometer a função renal.
“A gente já viu muitos pacientes que tomaram doses cavalares de vitamina D, passaram mal, foram no pronto-socorro, faz exame, tá com insuficiência renal aguda, tá com hipercalcemia e aí a gente tem que correr para tentar reverter o prejuízo.”
Para Biluca, esse cuidado não se restringe às vitaminas compradas prontas. Fórmulas manipuladas e outros suplementos também precisam ser avaliados de acordo com a necessidade individual.
“Qualquer suplementação pronta ou receita para manipular ou creatina, glutamina, protein, tudo pode, desde que bem indicado e na dosagem correta.”
Mais proteína não significa mais músculo
A popularização do whey protein e dos alimentos hiperproteicos trouxe outra questão para o consultório do nefrologista. Biluca conta que recebe inclusive adolescentes levados pelos pais antes de começar a usar creatina ou suplementos de proteína. Nesses casos, exames de sangue, urina e ultrassom podem fornecer informações sobre a saúde dos rins antes da indicação.
O problema, segundo ele, não está necessariamente no whey, mas na quantidade total de proteína ingerida ao longo do dia.
Como exemplo, Biluca cita uma mulher adulta de 60 quilos com uma meta de 1 grama de proteína por quilo de peso. Um filé de frango de 100 gramas, segundo o médico, tem cerca de 30 gramas de proteína. Com uma porção no almoço e outra no jantar, ela já atingiria os 60 gramas usados naquele exemplo.
“Já bateu a meta? Já bateu. Para que que vai suplementar tanto?”
Isso não significa que o whey não tenha utilidade. Para Biluca, o suplemento pode ajudar a atingir a quantidade planejada de proteína quando a alimentação não é suficiente ou facilitar a rotina em situações em que não é possível fazer uma refeição.
“A proteína vem muito para ajudar a logística. Vou ter que pular um almoço ou não vou conseguir jantar, aí tudo bem. Aí você toma dose de whey ou você toma esse iogurte e contabiliza.”
O cuidado está em acreditar que simplesmente aumentar a ingestão de proteína fará com que todo esse excesso se transforme em músculo.
Biluca explica que as proteínas ingeridas são quebradas em aminoácidos. Como o organismo não consegue armazená-los da mesma maneira que armazena gordura, parte do que não é utilizado é degradada, com produção de ureia, eliminada pelos rins.
“Não é que toda proteína que você tá comendo vai virar músculo, porque se fosse assim era fácil, né? Eu que sou magro e quiser fazer músculo, vou me entupir de proteína e vou ficar musculoso. Não é assim.”
No consultório, o nefrologista relata encontrar pacientes com creatinina normal, mas ureia elevada, e identificar durante a investigação um consumo excessivo de proteínas. Para quem já tem doença renal crônica, a atenção é ainda maior: nesses pacientes, a restrição de proteína pode fazer parte do tratamento para reduzir a produção de ureia.
A mensagem, portanto, não é que creatina, whey ou vitaminas precisem ser retirados da rotina, mas que suplementação não deve ser tratada como sinônimo de “quanto mais, melhor”.
Biluca ressalta que pessoas com diabetes, hipertensão ou alterações em exames como ureia, creatinina e urina merecem atenção especial e podem ter indicação de acompanhamento com um nefrologista. Para quem pretende suplementar, conhecer a própria condição de saúde e considerar o que já é consumido pela alimentação ajuda a evitar excessos.
Antes de encerrar a entrevista, o nefrologista faz ainda um alerta que foge da suplementação, mas que considera importante quando o assunto é preservar os rins: a automedicação, especialmente com anti-inflamatórios.
“Anti-inflamatório é uma medicação muito boa. Anti-inflamatório é uma medicação que realmente controla muito bem alguns tipos de dor que só ele consegue controlar, mas faz muito mal pros rins.”
Biluca relata já ter acompanhado pacientes que chegaram à hemodiálise após o uso abusivo e prolongado desses medicamentos. Por isso, orienta quem faz uso frequente de anti-inflamatórios por conta própria a procurar avaliação médica.
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