Canetas emagrecedoras no SUS: especialistas discutem acesso, custos e continuidade do tratamento da obesidade
Durante o Summit Saúde do Estadão, médicos e representante da saúde suplementar debateram os desafios para ampliar o acesso aos medicamentos e defenderam o acompanhamento multidisciplinar e contínuo de pessoas com obesidade.
A chegada de medicamentos cada vez mais eficazes para o tratamento da obesidade trouxe uma nova discussão para a saúde pública e suplementar no Brasil: como garantir o acesso às chamadas canetas emagrecedoras sem comprometer a continuidade do tratamento? O tema esteve no centro de um dos painéis do Summit Saúde do Estadão, realizado nesta terça-feira (27), em São Paulo.
Com o título “Canetas para obesidade: o que falta para chegarem ao SUS e aos planos de saúde? E quem deverá ter acesso?”, o debate reuniu especialistas em obesidade e um representante do setor de planos de saúde para discutir os desafios clínicos, econômicos e estruturais relacionados à incorporação desses medicamentos.
Um dos principais consensos entre os participantes foi a necessidade de reconhecer a obesidade como uma doença crônica e recidivante, cujo tratamento exige acompanhamento contínuo e multidisciplinar. Embora o uso de medicamentos possa variar conforme a indicação clínica e a evolução de cada paciente, o cuidado com a obesidade não termina com a perda de peso. O controle da doença envolve diferentes profissionais de saúde e estratégias terapêuticas que precisam ser mantidas e adaptadas ao longo da vida.
O endocrinologista Bruno Geloneze, professor livre-docente da Unicamp e pesquisador nas áreas de obesidade e diabetes, defendeu que a prescrição desse tipo de medicamento deve levar em consideração a possibilidade de o paciente manter o tratamento a longo prazo.
Segundo o especialista, o médico precisa avaliar se existem condições para a continuidade do uso antes de iniciar a terapia. Na avaliação apresentada durante o painel, prescrever um medicamento sem perspectiva de manutenção pode expor o paciente à interrupção do tratamento e ao consequente reganho de peso.
Geloneze também chamou atenção para as possíveis consequências dos ciclos repetidos de perda e recuperação de peso. De acordo com o endocrinologista, dependendo das circunstâncias, o paciente pode recuperar gordura corporal sem recompor proporcionalmente a massa muscular perdida durante o emagrecimento, resultando em uma composição corporal menos favorável do que a anterior.
Nesse cenário, a discussão sobre o acesso aos medicamentos precisa considerar não apenas quem poderá iniciar o tratamento, mas também como garantir sua manutenção e o acompanhamento clínico adequado.
O desafio de ampliar o acesso sem comprometer a sustentabilidade
A incorporação das canetas emagrecedoras ao Sistema Único de Saúde (SUS) e sua cobertura pelos planos de saúde envolvem questões que vão além da eficácia dos medicamentos.
O custo das terapias, a quantidade de pessoas potencialmente elegíveis e a necessidade de utilização prolongada estão entre os fatores que tornam essa discussão complexa.
Durante o painel, Helton Freitas, presidente da Seguros Unimed, abordou os desafios relacionados à sustentabilidade financeira da saúde suplementar. A ampliação da cobertura de tratamentos de alto custo exige avaliar seu impacto sobre os recursos disponíveis e sobre a assistência oferecida aos beneficiários.
O debate também passou pela necessidade de estabelecer critérios clínicos para a prescrição, considerando que nem todas as pessoas com obesidade apresentam as mesmas necessidades ou os mesmos riscos à saúde.
A definição de prioridades, o acompanhamento dos resultados e o uso adequado dos medicamentos são questões relevantes tanto para o sistema público quanto para os planos de saúde.
Obesidade exige tratamento contínuo e acompanhamento multidisciplinar
Outro ponto enfatizado pelos participantes foi que o tratamento da obesidade não pode se resumir à prescrição de medicamentos.
Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade da Disciplina de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), participou do debate sobre os desafios para ampliar o acesso às novas terapias.
O acompanhamento multidisciplinar foi apontado como uma das principais ferramentas para o controle da doença. Além da avaliação médica e do uso de medicamentos quando indicados, o tratamento pode envolver acompanhamento nutricional, prática orientada de atividade física, suporte psicológico e outras intervenções de acordo com as necessidades individuais.
Essa abordagem é importante não apenas durante o processo de emagrecimento, mas também na manutenção dos resultados e na prevenção do reganho de peso.
O reconhecimento da obesidade como uma doença crônica significa compreender que o tratamento não tem uma data definitiva para terminar. As estratégias podem mudar ao longo do tempo, mas a necessidade de acompanhamento permanece.
Nesse contexto, as canetas emagrecedoras representam uma ferramenta terapêutica importante, mas não substituem os demais componentes do cuidado.
Quem poderá ter acesso às canetas emagrecedoras?
Uma das questões centrais do painel foi justamente a definição de quem deverá receber esses medicamentos caso sua oferta seja ampliada no SUS e na saúde suplementar.
A obesidade afeta pessoas com diferentes graus de comprometimento metabólico e pode estar associada a doenças como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e problemas cardiovasculares.
Por isso, a eventual ampliação do acesso exige critérios que considerem as condições clínicas, os riscos individuais, os benefícios esperados e a capacidade dos sistemas de saúde de garantir o acompanhamento necessário.
Também é preciso considerar a desigualdade no acesso ao tratamento. Enquanto parte da população consegue adquirir os medicamentos com recursos próprios, muitas pessoas que vivem com obesidade não têm condições financeiras de iniciar ou manter a terapia.
O desafio, portanto, não está apenas em disponibilizar as canetas emagrecedoras, mas em construir um modelo de assistência que ofereça tratamento adequado, contínuo e sustentável.
O debate realizado no Summit Saúde do Estadão reforçou que a incorporação dessas terapias precisa ser discutida como parte de uma política mais ampla de cuidado da obesidade, reconhecendo a doença como uma condição crônica e garantindo que o tratamento vá além da prescrição de medicamentos.
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