Bariátrica ou caneta? Entenda por que os tratamentos para obesidade não competem entre si

Os medicamentos para obesidade ganharam espaço nos últimos anos, mas isso não significa o fim da cirurgia bariátrica.

Desde que os medicamentos para obesidade ganharam popularidade, uma dúvida passou a aparecer com frequência entre os pacientes: afinal, as canetas emagrecedoras vão substituir a cirurgia bariátrica?

Para o cirurgião bariátrico Felipe Rossi, essa discussão parte de uma premissa equivocada.

"Não existe competição entre canetas e cirurgia bariátrica", resume Felipe Rossi, cirurgião bariátrico.

Segundo ele, os dois tratamentos têm indicações diferentes e, muitas vezes, fazem parte da mesma estratégia terapêutica para controlar uma doença crônica: a obesidade.

A bariátrica não perdeu espaço

Felipe explica que, sempre que surge um novo medicamento para perda de peso, aparece também a previsão de que a cirurgia bariátrica deixará de existir.

Foi assim, segundo ele, com outros medicamentos no passado e voltou a acontecer agora com as novas canetas emagrecedoras.

Na prática, porém, isso não aconteceu.

O que mudou foi o perfil dos pacientes que costumam se beneficiar mais da cirurgia. Segundo o médico, hoje ela continua sendo uma importante opção principalmente para pessoas com IMC acima de 40 ou entre 35 e 40 associado a comorbidades.

Cada tratamento entrega um resultado diferente

Na entrevista, Felipe Rossi explica que as medicações mais modernas apresentam expectativa média de perda de peso entre 17% e 22%, podendo chegar a cerca de 25% em alguns pacientes.

Já a cirurgia bariátrica costuma proporcionar perdas superiores a 25% do peso corporal.

Por isso, segundo ele, especialmente nos casos de obesidade mais grave, a cirurgia continua oferecendo resultados que os medicamentos ainda não conseguem reproduzir.

O desafio não é escolher entre cirurgia ou caneta

Apesar da popularização dos medicamentos, Felipe lembra que o Brasil ainda opera uma parcela muito pequena das pessoas que realmente têm indicação para bariátrica.

Segundo ele, apenas cerca de 1% dos pacientes elegíveis realizam o procedimento.

Ao mesmo tempo, a obesidade continua afetando uma parcela expressiva da população brasileira.

"Hoje a gente tem um número de pessoas com obesidade que precisa de tratamento muito amplo", afirma.

A obesidade continua existindo quando o tratamento é interrompido

Outro ponto abordado pelo especialista é a expectativa de que os medicamentos resolvam definitivamente o problema.

Segundo ele, isso não acontece porque a obesidade é uma doença crônica.

Na entrevista, Felipe faz uma comparação com o tratamento da hipertensão.

Quando uma pessoa controla a pressão arterial com medicamentos, ela não deixa de tomar o remédio apenas porque os níveis voltaram ao normal.

Com a obesidade, explica ele, a lógica é semelhante.

Ao interromper o tratamento, a doença volta a se manifestar.

Por isso, segundo o médico, muitos pacientes precisarão manter o uso da medicação por tempo prolongado para sustentar os resultados.

Cirurgia e canetas podem caminhar juntas

Na prática do consultório, Felipe diz que isso acontece com frequência.

Há pacientes que usam medicamentos antes da cirurgia para reduzir riscos operatórios.

Outros iniciam o tratamento com as canetas e conseguem atingir seus objetivos sem necessidade de operar.

Também existem pacientes que, anos após a bariátrica, utilizam medicamentos para ajudar no controle do peso.

"Hoje o tratamento da obesidade é multimodal", afirma.

Segundo ele, além da cirurgia e das medicações, fazem parte desse cuidado nutricionista, psicólogo, educador físico e acompanhamento médico contínuo.

Não existe solução única

Felipe reforça diversas vezes que a obesidade não pode ser tratada como uma disputa entre diferentes terapias.

Cada paciente possui uma história, um grau de obesidade, doenças associadas e condições diferentes para aderir ao tratamento.

Por isso, a escolha da estratégia deve ser individualizada e feita com acompanhamento especializado.

"O tratamento é junto. Não existe polarização no tratamento da obesidade."

Mais do que perder peso, é preciso manter os resultados

O cirurgião chama atenção para outro aspecto importante: a qualidade da perda de peso.

Segundo ele, preservar a massa muscular faz parte do tratamento e a musculação tem papel importante para a manutenção dos resultados, tanto após a cirurgia quanto durante o uso das medicações.

"O maior fator de impacto para manutenção de peso a longo prazo chama-se musculação."